Dirigido pelo sueco Peter Cohen, Homo Sapiens 1900 mostra o lado mais insano e cruel da Eugenia. Por definição, Eugenia é a ciência que estuda as condições mais adequadas para o melhoramento da “raça” humana. Tal idéia, a princípio, nada tem de negativa. Porém, ao ser levada aos extremos, tornando-se instrumento para políticas de higiene racial, como é mostrada no filme, esta, se torna, no mínimo, assustadora.
Ao contrário do que muitos pensam, os ideais de limpeza étnica e pureza racial não surgiram na Alemanha nazista. É verdade que nesta, tais concepções foram elevadas a um patamar jamais visto na história. O documentário nos mostra que tais idéias eram amplamente difundidas na primeira metade do século XX, nos Estados Unidos, mas, principalmente na Europa.
Cohen se utiliza, brilhantemente, de materiais da época como documentos e arquivos de propaganda para mostrar como a Eugenia era utilizada para eliminar todos aqueles que não se enquadravam em um padrão humano desenvolvido a partir de ideais de superioridade racial. Sem duvida alguma, o ápice do documentário, e, com toda a certeza, sua cena mais horripilante, é a imagem de um pequeno filme norte-americano, onde um médico adepto da higiene étnica condena à morte um bebê nascido defeituoso.
Porém, os principais alvos da critica do diretor são a Alemanha nazista e a União Soviética de Stalin. Países onde a Eugenia foi utilizada largamente para fins negativos. Embora seus objetivos fossem diferentes, ambos os regimes buscavam a perfeição humana, tanto física quanto mental, para a criação do ser humano que propunham.
Enfim, em termos cinematográficos, Homo Sapiens 1900 deixa muito a desejar se comparado com Arquitetura da Destruição, documentário que, efetivamente, consagrou o sueco Peter Cohen. Entretanto, dentro de sua proposta, o filme mantém uma boa desenvoltura, dialogando de maneira harmoniosa com os diversos materiais expostos. Portanto, para aqueles que se interessam pelo assunto, Homo Sapiens 1900 pode ser considerado um filme obrigatório.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
• Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 8: p. 335-361.
Em suma, no oitavo capitulo de seu livro, o autor propõe uma definição “precisa e utilizável” (p.358) para o Fascismo. Ao longo do texto, uma série de propostas elaboradas por outros autores, para definir o que seria o Fascismo, são apresentadas e criticadas por Paxton que expõe os enganos decorrentes de cada uma delas.
O autor enfatiza, antes de iniciar tal exposição, que “uma definição que faça total justiça ao fenômeno do fascismo deve levar em conta os estágios finais, tanto quanto os iniciais” (p.336). Dentre as diversas interpretações apresentadas no texto, estão:
1. A tradicional concepção marxista de que o Fascismo foi um mero instrumento do capitalismo. Esta, nega a autenticidade de seu apelo popular e o reduz ao resultado inevitável de uma crise de superprodução capitalista. (p.337)
2. A interpretação oposta à anterior consiste em colocar o empresariado como vítima do Fascismo. Segundo o autor, esta leva muito em consideração as tentativas empreendidas no pós-guerra dos empresários se eximirem de qualquer culpa. (p.338)
3. Outros enfoques apresentados são decorrentes de análises “psico-sociológicas”. Estas se enganam ao conferirem demasiada atenção ao caráter excessivamente obsessivo e, em alguns casos, insano de alguns fascistas, ou ao ambiente social no qual este se desenvolveu.
Uma visão que merece destaque e que, segundo o autor, partilhada por uma “multidão de observadores” (p.345) é a que vê o fascismo como uma “subespécie de totalitarismo” (Idem). Acerca desta, escreve Paxton: “A imagem totalitária pode evocar de forma poderosa os sonhos e as aspirações dos ditadores, mas, na verdade, prejudica o exame da questão de importância mais vital, ou seja, com que eficiência os regimes fascistas conseguiam se encaixar nas sociedades, em parte submissas e em parte recalcitrantes, governadas por eles.” (p.350).
Mais adiante, Paxton propõe que se estabeleçam “fronteiras” entre “(...) ele e outras formas superficialmente assemelhadas” (p.353). São apresentados regimes constantemente rotulados como fascistas, como por exemplo: a França de Vichy, a Espanha de Franco e Portugal de Salazar. Porém, para o autor, cada um desses regimes possuía uma característica própria que os afastava do Fascismo propriamente dito.
Concluindo, na última parte do texto, Paxton afirma que:
“O fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vitima, e por cultos compensatórios da unidade, de energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza” (p.359).
Para ele, “(...) a melhor maneira de deduzir as idéias subjacentes às ações fascistas é a partir dessas próprias ações (...)” (p.359). Partindo disso, ele expõe uma série desses atos que, no segundo capítulo de seu livro, ele chamou de “paixões mobilizadoras”. Por meio destas “paixões mobilizadoras” e segundo a visão proposta, o Fascismo seria visível ainda nos dias atuais. Com isso, Paxton encerra o texto através da seguinte afirmação:
“Não é fácil determinar as reações corretas ao avanço fascista, uma vez que seu ciclo não tende a se replicar de maneira cega. No entanto, nossas chances de reagir de forma sensata serão muito maiores se compreendermos de que forma ele veio a alcançar êxito no passado” (p.361).
BIBLIOGRAFIA: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 8: p. 335-361.
O autor enfatiza, antes de iniciar tal exposição, que “uma definição que faça total justiça ao fenômeno do fascismo deve levar em conta os estágios finais, tanto quanto os iniciais” (p.336). Dentre as diversas interpretações apresentadas no texto, estão:
1. A tradicional concepção marxista de que o Fascismo foi um mero instrumento do capitalismo. Esta, nega a autenticidade de seu apelo popular e o reduz ao resultado inevitável de uma crise de superprodução capitalista. (p.337)
2. A interpretação oposta à anterior consiste em colocar o empresariado como vítima do Fascismo. Segundo o autor, esta leva muito em consideração as tentativas empreendidas no pós-guerra dos empresários se eximirem de qualquer culpa. (p.338)
3. Outros enfoques apresentados são decorrentes de análises “psico-sociológicas”. Estas se enganam ao conferirem demasiada atenção ao caráter excessivamente obsessivo e, em alguns casos, insano de alguns fascistas, ou ao ambiente social no qual este se desenvolveu.
Uma visão que merece destaque e que, segundo o autor, partilhada por uma “multidão de observadores” (p.345) é a que vê o fascismo como uma “subespécie de totalitarismo” (Idem). Acerca desta, escreve Paxton: “A imagem totalitária pode evocar de forma poderosa os sonhos e as aspirações dos ditadores, mas, na verdade, prejudica o exame da questão de importância mais vital, ou seja, com que eficiência os regimes fascistas conseguiam se encaixar nas sociedades, em parte submissas e em parte recalcitrantes, governadas por eles.” (p.350).
Mais adiante, Paxton propõe que se estabeleçam “fronteiras” entre “(...) ele e outras formas superficialmente assemelhadas” (p.353). São apresentados regimes constantemente rotulados como fascistas, como por exemplo: a França de Vichy, a Espanha de Franco e Portugal de Salazar. Porém, para o autor, cada um desses regimes possuía uma característica própria que os afastava do Fascismo propriamente dito.
Concluindo, na última parte do texto, Paxton afirma que:
“O fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vitima, e por cultos compensatórios da unidade, de energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza” (p.359).
Para ele, “(...) a melhor maneira de deduzir as idéias subjacentes às ações fascistas é a partir dessas próprias ações (...)” (p.359). Partindo disso, ele expõe uma série desses atos que, no segundo capítulo de seu livro, ele chamou de “paixões mobilizadoras”. Por meio destas “paixões mobilizadoras” e segundo a visão proposta, o Fascismo seria visível ainda nos dias atuais. Com isso, Paxton encerra o texto através da seguinte afirmação:
“Não é fácil determinar as reações corretas ao avanço fascista, uma vez que seu ciclo não tende a se replicar de maneira cega. No entanto, nossas chances de reagir de forma sensata serão muito maiores se compreendermos de que forma ele veio a alcançar êxito no passado” (p.361).
BIBLIOGRAFIA: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 8: p. 335-361.
segunda-feira, 31 de março de 2008
• Fichamento: PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007. Capítulo 1: p. 13-49.
Segundo Paxton, o Fascismo foi a grande inovação política do século XX, “um movimento popular contra a esquerda e contra o individualismo liberal” (p.46). Em seu texto, ele expõe as diversas formas que a historiografia, ao longo do tempo, utilizou para analisar o Fascismo e suas características, identificando os problemas decorrentes de cada uma dessas abordagens e propondo uma maneira de entender esse movimento político sem, de forma alguma, minimizá-lo.
O Fascismo surgiu oficialmente no ano de 1919 em Milão, com a reunião de um grupo de veteranos de guerra, sindicalistas e intelectuais futuristas em torno de Benito Mussolini, para declarar guerra ao socialismo que outrora se opôs ao nacionalismo italiano. Inicialmente, as propostas fascistas refletiam diretamente os grupos que o compunham, nacionalismo extremista, anticapitalismo, uso direto de violência contra seus inimigos e opositores e imenso desprezo pela ordem vigente.
O autor também menciona que, diferentemente da maioria das correntes políticas que vigoravam no século XX, o Fascismo não era um sistema ideológico fundado em proposições políticas elaboradas pelos estudos de um intelectual. Ao contrario, era um movimento essencialmente de massas, não possuía um programa político claramente definido. Suas propostas eram embasadas por uma meta final, “(...) realizar o destino de uma raça, ou povo, ou sangue eleito, engalfinhado numa luta darwiniana com outros povos (...)” (p.38-39). Portanto, a partir disso, Paxton conclui que cada movimento fascista guarda suas particularidades, estas, oriundas do ambiente político e social em que o movimento foi gerado.
Para entender o Fascismo em sua totalidade, é necessário encará-lo como um processo. Partir de definições, segundo o autor, é algo limitante, visto que torna estático algo que é bem melhor entendido quando tomado em movimento. Constantemente, estudiosos procuram identificar o fascismo pelo que ele fez ou disse em determinado momento. Para Paxton, “a procura pela definição perfeita, reduzindo o fascismo a uma sentença cada vez mais precisa, parece calar as perguntas sobre sua origem e trajetória de desenvolvimento, mais que abrir espaço para elas” (p.36).
Ao final do texto, o autor apresenta três tipos de abordagens decorrentes da dificuldade de definir o que pode ser considerado como sendo “Fascista”. A primeira, consiste na negação do próprio termo “fascismo”. Na pagina 45 lê-se: “(...) alguns acadêmicos, exasperados com o desleixo com que o termo costumava ser usado, negam que ele tenha qualquer significado”. Paxton afirma que o termo deve ter seu significado original resgatado, e não simplesmente descartado em razão desse mau uso. A segunda abordagem consiste em aceitar a diversidade inerente ao movimento político e compilar, como em uma enciclopédia, suas muitas formas. Tal forma de estudo implica em classificar o fascismo levando em consideração somente sua aparência externa, e ,por isso, é deixada de lado, momentaneamente, pelo autor. A proposta sugerida consiste em analisar o movimento fascista “em ação, desde seus primórdios até o cataclismo final, no interior da complexa teia de interações com a sociedade por ele formada” (p.47). Para isso, Paxton propõe uma análise em 5 estágios: (1) a criação dos movimentos; (2) seu enraizamento no sistema político; (3) a tomada do poder; (4) o exercício do poder; (5) e, por fim, o longo período de tempo durante o qual o regime opta ou pela radicalização ou pela desordem. É necessário analisar os estágios separadamente pois, “as ferramentas conceituais que iluminam um estagio podem não funcionar tão bem para os demais” (p.49).
O Fascismo surgiu oficialmente no ano de 1919 em Milão, com a reunião de um grupo de veteranos de guerra, sindicalistas e intelectuais futuristas em torno de Benito Mussolini, para declarar guerra ao socialismo que outrora se opôs ao nacionalismo italiano. Inicialmente, as propostas fascistas refletiam diretamente os grupos que o compunham, nacionalismo extremista, anticapitalismo, uso direto de violência contra seus inimigos e opositores e imenso desprezo pela ordem vigente.
O autor também menciona que, diferentemente da maioria das correntes políticas que vigoravam no século XX, o Fascismo não era um sistema ideológico fundado em proposições políticas elaboradas pelos estudos de um intelectual. Ao contrario, era um movimento essencialmente de massas, não possuía um programa político claramente definido. Suas propostas eram embasadas por uma meta final, “(...) realizar o destino de uma raça, ou povo, ou sangue eleito, engalfinhado numa luta darwiniana com outros povos (...)” (p.38-39). Portanto, a partir disso, Paxton conclui que cada movimento fascista guarda suas particularidades, estas, oriundas do ambiente político e social em que o movimento foi gerado.
Para entender o Fascismo em sua totalidade, é necessário encará-lo como um processo. Partir de definições, segundo o autor, é algo limitante, visto que torna estático algo que é bem melhor entendido quando tomado em movimento. Constantemente, estudiosos procuram identificar o fascismo pelo que ele fez ou disse em determinado momento. Para Paxton, “a procura pela definição perfeita, reduzindo o fascismo a uma sentença cada vez mais precisa, parece calar as perguntas sobre sua origem e trajetória de desenvolvimento, mais que abrir espaço para elas” (p.36).
Ao final do texto, o autor apresenta três tipos de abordagens decorrentes da dificuldade de definir o que pode ser considerado como sendo “Fascista”. A primeira, consiste na negação do próprio termo “fascismo”. Na pagina 45 lê-se: “(...) alguns acadêmicos, exasperados com o desleixo com que o termo costumava ser usado, negam que ele tenha qualquer significado”. Paxton afirma que o termo deve ter seu significado original resgatado, e não simplesmente descartado em razão desse mau uso. A segunda abordagem consiste em aceitar a diversidade inerente ao movimento político e compilar, como em uma enciclopédia, suas muitas formas. Tal forma de estudo implica em classificar o fascismo levando em consideração somente sua aparência externa, e ,por isso, é deixada de lado, momentaneamente, pelo autor. A proposta sugerida consiste em analisar o movimento fascista “em ação, desde seus primórdios até o cataclismo final, no interior da complexa teia de interações com a sociedade por ele formada” (p.47). Para isso, Paxton propõe uma análise em 5 estágios: (1) a criação dos movimentos; (2) seu enraizamento no sistema político; (3) a tomada do poder; (4) o exercício do poder; (5) e, por fim, o longo período de tempo durante o qual o regime opta ou pela radicalização ou pela desordem. É necessário analisar os estágios separadamente pois, “as ferramentas conceituais que iluminam um estagio podem não funcionar tão bem para os demais” (p.49).
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